Crise de fé
Costumo dizer muitas vezes que, apesar de não saber o que fazer no presente, confio na Inês do futuro para arranjar uma solução. Habituei-me a acreditar nisto e tenho levado os meus dias com base neste pensamento. Acho-lhe até alguma graça. Tanta graça que o partilhei com a minha terapeuta. O que não estava à espera era da resposta dela. Tu não tens de confiar na Inês do futuro, tens de confiar na vida.
Paralisei. O que queria ela dizer com aquilo? Ela está mesmo a dizer-me para não confiar em mim? Entendi que sim, que estava, mas não de uma forma literal. Confiar numa versão futura minha para arranjar uma solução para tudo é perpetuar um pensamento de invencibilidade e independência que me acompanha desde que sou criança. Habituei-me a ser a melhor em várias coisas sem pedir autorização; a fazer as coisas pela minha cabeça sem avaliar seriamente os riscos; a viver no limbo e a adorar esta relação tóxica entre mim e a minha adrenalina. Mas nunca pensei que os anos de glória tivessem um fim ou, pelo menos, um interregno. Têm e têm de ter. É a vida a restabelecer o equilíbrio.
Digo várias vezes que os meus 20’s foram de muita confusão e intensidade, e muito se deveu aos estímulos e ao vício de fazer coisas diferentes; de ser, de certa forma livre, no pensamento e no comportamento. E enquanto que na adolescência tinha de dar justificações a alguém, na adultez até disso me livrei, fazendo-me viver numa autêntica quimera, que quando escrevi o meu livro a achava poética, mas agora começo a achá-la desleal. Ninguém é invencível e toda a gente precisa de um ombro onde chorar, por mais sonhos e objetivos mal entendidos que se tenha.
Tenho vindo a entender que desconheço a resiliência no fracasso e que recuso ser cuidada, dependente e acolhida. A minha terapeuta disse-me que tinha de acolher tudo isto, entregar-me ao meu ninho, voltar a sentir-me bem nele e procurar a felicidade de dentro para fora e não de fora para dentro. Perguntei-lhe como é que isso se faz. E ela respondeu-me agradece. Mas não agradeças as duas pernas que tens, porque é muito fácil estares grata quando tens tudo. Agradece no dia em que não tiveres pernas.
Até isto me pareceram balelas, confirmando o título deste texto: estou a ter uma crise de fé. É que já nem na Inês do futuro acredito, o que, vendo agora bem as coisas, não é necessariamente mau. Eu nada controlo, ainda que me pergunte muitas vezes o que é que eu quero da vida. Mas talvez comece a entender que o mais inteligente a fazer é perguntar à vida o que é que ela quer de mim. É na resposta a esta pergunta que talvez resida a paz. E aí sim, estou autorizada a viajar pelo mundo: no dia em que me sentir exatamente igual aqui ou na China, por simplesmente não ver na viagem um meio para fugir de mim.
