Dar-te intimidade não é só entregar-te a minha pele, É dar-te acesso a tudo o que está, e é tanto, por baixo do que se vê. Porque se um dia te fores, eu serei capaz de recuperar todos os pedaços consentidos de roupa E de beijos e de corpo que trocámos, Mas nunca serei capaz de te apagar os meus segredos, Que levas contigo quando te perco para os teus medos. Intimidade é tudo isto E ainda achar que vale a pena.
Estava a ver O Fabuloso Destino de Amèlie pela primeira vez e adormeci ao fim de 26 minutos. Não porque não estava a gostar do filme, mas porque ando com os sonos trocados desde que me trocaste as voltas. Ou melhor. Tu não. A vida. A vida tem um tempo perfeito, muitas vezes mais lento que o nosso próprio tempo. Mas é perfeito. E, a seu tempo, ela prova-nos que acerta milimetricamente em tudo. Os sonos trocados devem-se a um coração inquieto e a um agosto atípico em sol e banhos no mar, mas típico em ócio. Talvez seja o último agosto da minha vida assim: molengo, quente, indisciplinado e em casa. Tudo está prestes a mudar. Está quase a fazer 1 ano que fui sozinha para a Indonésia; e este ano, estou a 1 semana de regressar ao Porto, cidade do meu coração. A Capicua, a artista portuguesa mais underrated da minha geração, tem uma canção que se chama Circunvalação. No refrão ela diz que o coração dela está entre o Douro e a Circunvalação, os limites marítimos e terrestres dentro dos quais ...
O dia 3 de maio é para mim, há 10 anos, o dia de aniversário da minha amiga Marina. Mas desde o ano passado que esta data se tornou ainda mais especial. Hoje faz 1 ano que comecei a fazer terapia. Às vezes dou por mim a criticar-me por expor o meu processo terapêutico, principalmente no meu podcast, onde falo sobre a minha vida e onde tenho vários momentos de catarse pela entrega que dou ao vaguear do meu pensamento. É provavelmente o único espaço no qual falo antes de pensar, pelo que é o que está a borbulhar na minha cabeça que comanda o raciocínio, e não a racionalidade em si. Mas depois lembro-me que não sei estar na vida sem a analisar, apreciar e partilhar. Esta forma de estar resulta comigo, porque me liberta e me dá prazer. Registar a vida através das palavras comove-me, renova-me e enraiza-me. Sinto-o desde 2019, quando encontrei na escrita o meu lugar preferido para estar. Senti-o em 2021, quando escrevi o meu livro e nele eternizei pedaços inteiros e nus de mim. E embora a e...