You silly, silly man
O teu jeito misterioso, excêntrico, aventureiro e aberto conquistou-me, mas foram os pequenos detalhes, a poesia, as constelações do teu corpo e a certeza de um bom coração que me fizeram querer ficar. Guiaste-me, guiaste-nos. Foste dando as ordens e as direções, e eu deixei-me levar, apenas. Incapaz de dar mais, ou de dar mais de mim, fui dando à medida que ias dando também.
Agora que me distancio consigo ver-me assustada e em negação de um sentimento que há muito procurava, mas que achava bom demais para ser verdade. Não me culpo só a mim nisto. Foi difícil decifrar o teu silêncio e quem éramos à distância. Por não saber o que esperar de ti decidi muitas vezes não esperar nada. Se não fosse tão bom o tempo passado a cantar no trânsito e a ver concertos históricos no youtube no teu t1, diria que esta relação era unilateral, de mim para ti, sem de ti para mim. Talvez por isso tivesse havido vezes em que quis jogar jogos para os quais nunca treinei. E, por isso, perdi todos. As fotografias que te tirei nunca foram por acaso; as mensagens que te mandei nunca foram espontâneas; as músicas que ouvi nunca foram sem a plena intenção de me fazer sentir mais próxima de ti, "you silly, sillly man."
Nós nunca fomos um acaso, porque no jogo de probabilidades em que nos conhecemos dificilmente teria encontrado alguém tão tanto aos meus olhos. Nós fomos a esperança de que é possível esbarrar com alguém que também goste de estar sozinho, que ouça a mesma canção, que questione o mundo e que o ame ao mesmo tempo, que escreva com o mesmo fim e que, no fim, esteja igualmente perdido, triste e só. Nós sempre fomos duas pessoas que se conectaram pelo mesmo motivo de desesperadamente encontrarem um ombro de conforto, mas que por isso mesmo, e pelo medo partilhado do compromisso, desesperadamente se desconectaram.
Nenhuma relação floresce no solo da necessidade. E talvez um dia nos voltemos a encontrar e a conectar e a fazer tudo isto resultar, desde que o desejo de estarmos juntos seja alimentado com a cura e a liberdade do presente e nunca com a mágoa e a assombração do passado.