Dois pesos, duas medidas

É na cama, no conforto da minha casa, com a barriga cheia e a roupa lavada, que escrevo este texto. Sei bem onde me vão levar estas palavras: a lado nenhum. Mas se para umas coisas afirmamos veemente que vale sempre a pena falar, então não é coerente ficar em silêncio perante o que está a acontecer.

Não vou armar-me em pessoa super entendida no assunto e dar todo um enquadramento histórico. Para isso existem os livros, todos os que ainda não li. Mas acredito que a história serve para nos ensinar. E se ela não está a ser contada corretamente, então perde a credibilidade. É que nenhum contexto valida o terrorismo e o genocídio, muito embora seja isso que esteja a acontecer: o terrorismo “que não vem do vácuo” a cumprir a sua missão de assustar e distrair os peões, enquanto a rainha aproveita o circo e faz xeque-mate - e entendam rainha da forma que quiserem, ainda que não seja muito difícil de lá chegar.

É impressionante a forma como se politiza tudo, como se transforma tudo num Porto-Benfica. E mais impressionante ainda é a forma enviesada como se descontextualizam palavras e imagens a nosso favor. Ou melhor: a favor daquilo que mais nos interessa. Mas porque é que nos interessa ficar de um lado desta história? Mais: porque é que nos interessa ficar em silêncio nesta história? O que é que se ganha e o que é que se perde na covardia de nos alhearmos da dizimação de um povo à vista de todos? Porque não me lixem: é verdade que as redes sociais estão a ocultar os conteúdos e o coração dos media no geral é azul e branco como o dos portistas. Mas quem quer, procura saber. E eu sei que todos nós já vimos imagens que nos chocaram, mas que por alguma razão não quisemos partilhar. Sanidade mental? Aceito, se o argumento for a decisão de controlar o acesso a estas imagens. Agora não ver as figuras públicas/”influencers” em massa a falar disto não é uma questão de sanidade mental. É talvez uma questão de preocupação com os problemas de primeiro mundo, tipo cultura de cancelamento e alcances e views, em detrimento dos problemas da destruição do mundo.

Não há muito tempo aprendi, com as manifestações pela crise da habitação, que ainda é na rua que se fazem as revoluções. Na altura das eleições, em que se dava palco à extrema direita, vi muita gente a dizer que compensa expô-los, porque haverá sempre alguém a entender o fascismo deles. Então porque é que agora não falamos? Não nos revoltámos? Não vamos todos para a rua? Não partilhamos? Não falamos sequer do assunto, foda-se? Porque é que não estamos todos a ter um surto de ansiedade com milhares de crianças assassinadas? Porque é que preferimos duvidar da veracidade destes números? Porquê?! É medo do que os outros vão dizer? É medo de sermos acusados de anti-semitismo ou pró-terrorismo? É medo da #publi de amanhã não chegar às pessoas? É ilusão de que isto não nos compete a nós? É falta de contexto histórico e, por isso, medo de cometer uma gafe? É o quê? Honestamente, não sei. Mas, também honestamente, sinto que este silêncio é ficar do lado do opressor e contribuir para a alucinação ocidental. Envergonha-me muito o ocidente, mas orgulha-me o Guterres. Porque ele sim, está no direito de sentir medo, mas está simultaneamente no dever de ser contra o arraso sem precedentes de vidas humanas.

E este dever não lhe compete só porque é secretário geral das Nações Unidas. Este dever compete-lhe porque ele é um ser humano. E se reivindica por direitos tem de fazer por cumprir os seus deveres! A questão aqui é que isto não se aplica só ao Guterres, mas a todos nós. Reivindicamos, e bem, o direito à igualdade, à educação, à habitação, aos cuidados de saúde. Mas somos incapazes de cumprir com o nosso dever de reivindicar tudo isto não só para nós, como para todos os seres humanos. É que diz-se carta dos direitos humanos, não se diz carta dos direitos humanos excepto árabes, negros ou judeus.

Talvez seja mesmo este o problema: acharmos que o que está a acontecer, por não ser na nossa cama, na nossa casa, na nossa mesa com comida e na nossa roupa lavada, não vale a pena ser reivindicado, discutido, instigado. E é nesta cobardia social que falhamos todos e que nos tornamos fantoches de um algoritmo, de uma comunicação social, enfim, de um sistema que usa dois pesos, duas medidas. Ainda este ano assistimos a uma mobilização internacional para revirar as profundezas do oceano à procura de 5 vidas. E agora achamos só normal, pela nossa saúde, estarmos calados no nosso canto a fingir cegueira e demência. E não, não sou eu que estou a dizer que estas 5 vidas valem menos. O mundo e as suas decisões é que dizem que estas 5 vidas valem mais.

Como disse no início, eu sei que este texto não me vai levar a lado nenhum e terá zero impacto neste conflito. Mas falar disto faz-me acreditar - e isto vale o que vale - que um dia vou poder olhar para trás e, espero eu, saber e sentir que estive do lado certo da barricada: o da proteção máxima de vidas humanas, sejam elas judias, árabes, russas, negras ou chinesas. É que a nacionalidade ou a religião não vêm com a vida ou no DNA, mas quem me dera que a lucidez, o bom senso e a empatia viessem.

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