Está a ser bom crescer
Anteontem foi Halloween. Lembro-me que há 2 anos fiz uma pausa enquanto estava a escrever o meu livro e vim ao Porto festejar este dia. Não tanto pela temática, mas por ser a primeira oportunidade para sair à noite após muitos meses de pandemia, confinamento e restrições.
Diverti-me muito. Estava a pesar imenso a liberdade. Não sabia quando seria a próxima vez em que nos iam recambiar para casa e, apesar das músicas serem as mesmas, do ambiente ser sufocante e de ter demorado uma hora e meia para sair da discoteca no final da festa, o balanço foi absolutamente positivo. Acabamos os quatro, eu e os meus três amigos que me acompanharam, a tomar o pequeno almoço na Confeitaria do Bolhão. Nunca um croissant com queijo prensado nos soube tão bem. Nunca uma coca-cola às sete e meia da manhã fez tanto sentido.
Recordo aqui este dia, porque este ano o meu Halloween foi diferente. Após ter passado o final de tarde a tratar coisas que só os adultos têm de tratar, como resolver problemas no banco ou renovar a carta de condução, cheguei a casa já era noite, mas na companhia de uma garrafa de vinho branco e de uns cogumelos frescos que cozinhei com massa e tomate cherry. Sozinha em casa, ocupei a cozinhar, pus um episódio de Friends a dar e observei-me. Visto de fora, ali estava uma jovem adulta a saborear um jantar simples e caseiro, a encontrar conforto numa sitcom dos anos 90, a observar com agrado a cor e a temperatura do copo de vinho e a aperceber-se do quão está a gostar de ser adulta.
Faço 30 anos em janeiro, mas só agora no final dos meus 29 é que me sinto a entrar na adultez. Concordo cada vez mais com a teoria de que quando deixamos de ser teenagers passamos apenas a ser adultos com um, dois, três anos de idade. Fazendo uma comparação com a escola, neste momento sinto-me a acabar o 4º ano e prestes a ir para a escola dos grandes, onde se passa a ter 7 ou 8 disciplinas, onde há mais responsabilidades e onde é importante aprender a gerir o tempo. No entanto, continuo a ter vontade de brincar. A diferença é que já não carrego a culpa por dedicar tempo a não fazer nada. Mais: já não sinto o famoso FOMO (fear of missing out) e sou cada vez mais adepta do JOMO: joy of missing out. E por isso é que comecei por falar do Halloween. Não é que tenha ficado feliz por não ir a uma festa, mas o facto de nem sequer me ter lembrado que era dia 31 de outubro até ver pessoas mascaradas na rua provou-me que as coisas que valorizava há 2 anos já não são as mesmas que valorizo hoje: uma casa limpa e arrumada, o cheiro de uma vela a queimar, uma playlist de jazz, ir ao supermerado e organizar as compras em casa, ser alegre no trabalho, deitar-me cedo, ler as notícias, dar notícias, fazer terapia, ter paciência.
Estou entusiasmada pela próxima década. Já disse isto muitas vezes, mas volto a dizer: os 20's foram loucos. Tudo o que tinha de errar, arriscar, errar e viver nos últimos 10 anos, eu errei, arrisquei e errei, vivi. Mas cansei-me. E imaginar os próximos anos da minha vida com mais lucidez, calma e maturidade fazem-me acreditar que irei continuar a viver com intensidade, mas segundo os meus termos e condições e não segundo os termos e condições com os quais todos aceitamos e concordamos, mas que nunca nos damos ao trabalho de compreender.