Salas de espera

As salas de espera são, para mim, espaços de mistério. Não me refiro às dos hospitais, onde através da tosse, do gesso ou dos gemidos sabemos se é constipação, fratura ou dor nos rins. Dizem que as crises renais não se desejam ao pior inimigo. Pois eu cá nunca tive nenhuma. Por outro lado, caio com facilidade nas armadilhas da minha mente traiçoeira e é precisamente essa matreirice que é misteriosa e que se encontra entre todos os que, com mais ou menos toques e mexericos na cadeira, aguardam pela chamada da psicóloga no consultório.

Tenho-me cruzado com salas cada vez mais cheias. Quando comecei a fazer terapia, há quase 1 ano, esperei sempre sozinha. Sei de cor os azulejos do chão da sala e encontro-lhes um padrão que se repete. Os cadeirões são azuis, há uma lareira inutilizada e escondida por plantas e alguns quadros na parede. A madeira é daquelas que faz barulho, sendo impossível não dar pela chegada de alguém. Por isso, o som do chão a ranger antecipava sempre a vinda da minha psicóloga, que com um abraço e um sorriso me recebia sempre. Mas isso agora já não acontece.

Ontem esperei na companhia de uma mulher, alta, morena, na casa dos 40 anos, e de um rapaz, mais ou menos da minha idade, de casaco branco e uma mochila às costas. Acho que ele ia para psiquiatria, porque lhe foi pedido na receção o número de utente e eu supus que seria para o médico ter acesso aos dados pessoais para lhe passar eventualmente medicação. Estou só a supor, como fiz com a mulher que foi chamada antes de mim e que aguardou a olhar para o telemóvel. Será família? Casamento? Luto? Trabalho? Esta fui eu a tentar adivinhar o que levou aqueles estranhos até ali. Talvez eles tenham pensado o mesmo de mim.

Independentemente da resposta, sinto que se cria um sentimento de empatia e abraço coletivo nas salas de espera de um consultório de psicologia. Trocam-se olhares tímidos, mas ternurentos, porque há um certo apreço pelo sofrimento interior alheio. E isto não é porque somos todos boas pessoas. Apenas vemos nos outros a nossa angústia e a consequente coragem de esaranfuchar por ela a dentro. Nestes lugares, não há desprezo nem indiferença pelas maleitas dos outros, porque se sabe que elas não se curam com um ben-u-ron. Não se concerta uma pessoa que não sabe onde dói ou porque dói, com um fármaco ingerível de 8 em 8 horas durante uma semana. E isso impõe respeito.

Curar a cabeça é um processo eternamente inacabado a partir do momento em que ele se inicia. E por muito que isto possa ser uma sentença, é também a chave que decifra as minhas inseguranças e com as quais tenho de viver, por opção ou por oposição. Saramago dizia que não dá para ver a ilha se não saírmos da ilha. Ir à terapia é atirar-me ao mar e afastar-me da terra. Já o fiz a nado, à boleia de um barco e a remar dentro de um caiaque. Ontem, pela primeira vez, fui arrastada por uma onda gigante que me apanhou desprevenida de costas e que quase me afogou pelo fôlego que me roubou.

Neste momento estou à deriva, em cima de uma bóia, a ver o quão cega consegue ser a ilha. É que apesar dos limites terrestres estarem definidos, convém não esquecer que o que a rodeia é uma imensidão a extravasar de aventura, experiências, seres e cores. Mas o alto mar também simboliza não ter pé. E por isso a ilha anula-se e reduz-se à segurança daquilo que já conhece, muito embora tenha noção que são as ondas, imprevisíveis, disruptivas e intensas, que a fazem sentir-se viva; e que sem o mar, uma ilha não é uma ilha. 

Esta ilha sou eu.





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